Crítica: Fragmentado

Se existe um diretor que sempre gera burburinho quando está à frente de uma produção é M. Night Shyamalan. Desde o sucesso estrondoso que conquistou escrevendo e dirigindo O Sexto Sentido (1999), ele busca repetir a fórmula da narrativa de suspense que sofre uma grande reviravolta no final. Em alguns casos, foi bem sucedido, como em Corpo Fechado (2000), em outros, um fracasso, como em Fim dos Tempos (2008). Por esse motivo, a carreira irregular de Shyamalan sempre acaba roubando os holofotes nas discussões, de modo que se torna impossível não falar dela; talvez numa expectativa de que nos surpreendamos não só com o plot twist de seus filmes, mas com a qualidade deles.

A aposta da vez é Fragmentado (Split), cujo enredo gira em torno de um homem que sofre de um transtorno que o faz ter 23 personalidades distintas e que, por um motivo revelado apenas no desenrolar da trama, sequestra três adolescentes e as mantém em cárcere privado. Interpretado brilhantemente por James McAvoy, o personagem incorpora as várias facetas e dá vida a um homem compulsivamente metódico, a uma polida mulher, a uma criança de 9 anos, a um simpático estilista, e a mais outros tantos tipos.

Grande parte do êxito do filme estava depositada justamente na promessa de um ator que lidasse com esse desafio, e pode-se dizer que foi alcançada. A construção dos personagens foi um acerto de McAvoy na medida em que ele não os transformou em caricaturas. Os traços que os diferencia são sutis, estão numa leve mudança na voz, nos gestos, no encadeamento das frases, nos sotaques. E quando, em determinada cena, vemos uma das personalidades dar lugar à outra em questão de segundos, podemos perceber o minucioso trabalho de atuação graças a um close-up sem cortes que captura cada movimentação em seu rosto.

Já em relação ao trabalho de Shyamalan, é preciso separá-lo em duas instâncias: direção e roteiro. A primeira é bem executada, e apresenta as marcas que estão presentes em obras anteriores, como o enquadramento frontal nos personagens, fazendo com que “conversem com a câmera”, e um atmosfera de suspense que nos deixa apreensivos. Já a segunda é mais problemática e se vale de dispositivos narrativos que acabam se tornando visivelmente artificiais e práticos, tudo com o intuito de que, no fim, a ideia do filme seja bem vendida. É o caso, por exemplo, da personagem psiquiatra que não tem muita função na história, a não ser tornar verossímil a situação surreal de seu paciente múltiplo, e dos descartáveis flashbacks que revelam um fato importante a respeito da personagem Casey, interpretada por Anya Taylor-Joy.

A conclusão da trama, apesar de ter alguns excessos e exageros, é menos ambiciosa que a de trabalhos anteriores. E a reviravolta final (pensou que não haveria uma?) é espirituosa, e não digamos mais nada para não cairmos na tentação do spoiler. Verdade seja dita, Fragmentado não é um filme extraordinário, mas está longe de ser uma das bombas que Shyamalan veio lançando nos últimos anos. Como suspense e terror psicológico, funciona muito bem e representa o gênero. Esperamos que seja um sinal de redenção e que esse filho pródigo não se perca mais.

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