Malasartes e o Duelo com a Morte: será que vale a pena?

De tempos em tempos, o cinema brasileiro investe em histórias fantásticas. Convenhamos: esse é um nicho que consumimos com voracidade quando vêm de fora. Porém, sabe-se lá por quê, não costumamos produzir histórias assim. A mais recente investida chama-se “Malasartes e o Duelo com a Morte”, que entra no circuito nacional no próximo dia 10. E aí? Será que dessa vez a coisa anda? Será que “Malasartes e o Duelo com a Morte” vale a pena?

Malasartes é um personagem tradicional nas terrinhas portuguesas e brasileiras, e já apareceu no cinema nacional em 1960 e 1974. É a encarnação da malandragem e da esperteza, sobrevivendo de pequenos golpes. Nesse filme, entretanto, suas aventuras ganham contornos sobrenaturais, na medida em que a Morte tenta lhe passar a perna.

Os pontos fortes

O filme está de parabéns em termos de escolha de planos, trilha sonora, direção de fotografia e de arte. Afinal, estamos falando da  O2 Filmes, a produtora de Cidade de Deus! O diretor Paulo Morelli escolhe posições e movimentos de câmera que vão muito além do arroz com feijão da maioria dos gringos. Quanto à trilha sonora, ela capta a veia rural da cultura brasileira sem cair na tentação do sertanejo moderno. Afinal, num filme para buscar raízes, fazenda é sinônimo de pureza e paz de espírito, não de chorar mágoas ou farrear.

A direção de fotografia faz um belo trabalho com iluminações que não têm medo de sombras, o que confere grande riqueza ao mundo “real” da história. E, de quebra, valoriza bastante o trabalho da direção de arte. Figurinos, objetos cênicos e cenários do mundo “real” são carregados, mas não sobrecarregados, de texturas e cores muito vívidos para quem já esteve no campo.

Foto: Divulgação

Os pontos não tão fortes

No mundo “sobrenatural”, os mesmos cenários e figurinos carregam consigo a diversidade de nossa cultura, porém com cores mais frias e oníricas. No entanto, alguns elementos cênicos não funcionam tão bem. O covil da Morte, em particular, com suas caveiras e excesso de pó, parece exagerado e pouco original.

Os efeitos especiais apresentam boa qualidade, e são até capazes de causar deslumbramento em algumas partes. São coisas simples, como o estranho equilíbrio da morte na cabeceira de uma cama, mas que fazem toda diferença. Não, os efeitos não são perfeitos em todos os momentos, mas ainda estão um bocado acima de muita produção gringa.

O elenco, em sua maioria, funciona muito bem obrigado. Jesuíta Barbosa mostra a que veio com o protagonista, assim como Isis Valverde e sua mocinha. Augusto Madeira está cativante com seu coadjuvante, inclusive com as mudanças que sofre durante a história. Milhem Cortaz e Júlio Andrade cumprem bem os papéis de Próspero e a Morte. Vera Holtz é que não está tão expressiva em seu papel, enquanto Leandro Hassum se torna caricato em alguns momentos.

Os pontos francos

Definitivamente, o ponto mais fraco de “Malasartes e o Duelo com a Morte” é a ideia central, o que no cinema é chamado de Argumento. Os motivos para a Morte enganar Malasartes não convencem. Principalmente quando dois poderosos personagens lutam entre si para tomar o “fardo” que a Morte deseja passar para o protagonista.

A partir daí, o roteiro desanda. Mesmo com falas bem escritas e desdobramentos interessantes, a história se torna artificial. Para completar, os personagens negros e as mulheres da história não escapam aos clichês. No fim das contas, acaba sendo mais uma narrativa centrada nos homens brancos.

Vale a pena ver “Malasartes e o Duelo com a Morte”? Sim, vale. Tudo indica que esse ainda não é “O” filme que marcará uma robusta produção de ficção fantástica brasileira. Mesmo assim, é uma agradável experiência visual, digna de se ver na tela grande. E, quem sabe, nas próximas investidas, não dialogam melhor com a multidão de nerds brasileiros? Afinal, é esse o público que lota as salas a cada filme de super-heroi ou fantasia. É um público com identidade cada vez mais consolidada (#orgulhonerd). É um público fera em descobrir desdobramentos e minúcias de universos inverossímeis. Fica a dica: essa galera daria uma ótima consultoria para o tipo de filme que ainda falta no cinema brasileiro. Um pouco de fan service não faz mal a ninguém.

“Malasartes e o Duelo com a Morte” estreia no dia 10 de agosto.

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