Mulher-Maravilha: será que vale a pena?

Na briga entre DC e Marvel nos cinemas, a segunda vem sempre levando a melhor. É até covardia comparar “Vingadores: a Era de Ultron” com um “Batman vs Superman”. No entanto, os fãs ganharam, no filme do morcego contra o azulão, um raio de esperança chamado “Mulher-Maravilha”. A esperança virou ansiedade quando anunciaram o filme solo e esse finalmente saiu. E apesar do que a crítica internacional anuncia, todo nerd brasileiro quer saber. E aí? “Mulher-Maravilha” vale a pena?

Muita bagagem

A expectativa vem de todos os lados. Primeiro dos fãs da DC em geral, famintos por um filme no capricho. Porém, antes deles, vem toda uma legião de mulheres e homens que compartilham o sentimento de que elas são tão capazes quanto eles, e que todo ser humano merece o máximo respeito por suas potencialidades, limites e principalmente sentimentos, independente de sexo biológico ou identidade de gênero. Essa é uma bandeira para a qual muita gente torce o nariz, mas que está no cerne da Mulher-Maravilha enquanto personagem. Afinal, o criador dela era um psicólogo com uma visão diferenciada do feminino, e criou-a para fortalecer a autoconfiança das mulheres. Contudo, logo que a personagem saiu do controle dele, trataram de domesticá-la, tornando-a “secretária” da Sociedade da Justiça. É de revirar o estômago.

De lá pra cá a personagem teve seus altos (como a série dos anos 70 com a icônica Lynda Carter) e baixos (como as participações da mesma nos Super-Amigos, numa estranha mistura entre heroína e donzela a ser resgatada). O fato é que, desde o ressurgimento dos filmes de super-heróis como blockbusters, não houve um filme solo decente com super-heroínas (não vamos levar a sério os closes glúteos de Elektra e Mulher Gato). Mulher-Maravilha sempre foi o projeto de filme mais icônico sobre representatividade feminina no mundo nerd. E também o mais protelado.

O mote

Felizmente, fizeram boas escolhas. A primeira foi de mergulharem fundo nas origens da personagem. A história começa com a infância de Diana (o nome real da Mulher-Maravilha), princesa de Themyscyra, a ilha das amazonas (sim, aquelas das lendas greco-romanas). Nascida e criada num ambiente sem homens, desde criança aprendeu que o dever das amazonas é aniquilar Ares, o deus da Guerra, para cessar as matanças no mundo. Uma missão que Diana abraça apaixonadamente.

Há ingenuidade nisso? Claro, mas não é algo ruim. O filme é justamente sobre a ingenuidade cativante de Diana que, como era de se esperar, evolui para outra coisa. É a perfeita narrativa da jornada do herói clássico, Mas ei: quer algo mais clássico que uma heroína greco-romana? Aliás, a jornada do herói se consolidou justamente na cultura grega. Por isso certos clichês aparecem sim no roteiro. O mérito é justamente reinventar esses clichês. Por exemplo, Diana é tão ingênua quanto culta, sempre surpreendendo a todos por onde passa. Outro ponto positivo é que este não é um filme de “menininha”. Afinal, mulheres libertas do machismo costumam ter muitos outros interesses além de compras, beleza e romance.

Roteiro

O desenvolvimento do roteiro é coerente, sem furos (embora pareça que a edição cortou partes que deixariam a narrativa mais redonda). As personagens têm profundidade, e o principal: embora receba ajuda de homens, a Mulher-Maravilha detém o papel de líder e protagonista. A reação masculina é bastante coerente a isso. Afinal, amigo, quando uma mulher demonstrar mais talento que você em uma área (como nas trincheiras da 1ª Grande Guerra), ficar magoadinho não vai ajudar. Seja esperto, dê um um passinho para o lado e fique feliz por tê-la como líder.

O único arranhão no roteiro é o vilão falastrão. Ok, ok, o público precisava de respostas. Nada que estrague o filme no fim das contas.

A resolução do arco da ingenuidade de Diana foi um verdadeiro alívio pra mim. Ela não se torna amarga nem cínica. Apenas enxerga melhor a bondade e a maldade do mundo e, embora muitos discordem, dela mesma. Uma nova sabedoria que a faz apostar no amor e na boa vontade.

As mulheres por trás da Mulher-Maravilha

Era óbvio que pelo menos esse primeiro filme precisava de uma diretora talentosa. E Patty Jenkins não decepciona. Os planos adequados a cada situação são escolhidos e combinados com maestria. Todos os tempos, ângulos e movimentos de câmera ajudam a construir drama, ação, humor, romance, decepção. Tá, há uma dose quase excessiva de câmera lenta, mas paciência! O povo adora e fica lindo na tela. E claro: nada de focar na bunda ou nos seios da Mulher-Maravilha. Afinal, o que uma diretora sabe é que ser reduzida a um pedaço de carne é extremamente desagradável.

Gal Gadot é outra mulher essencial para o filme. Terem a escalado como protagonista foi, sem dúvida, fundamental. A moça já foi Miss Israel e instrutora (sim, instrutora) de artes marciais no exército de seu país. Mais que isso, ela compreende e abraça o papel que a Mulher-Maravilha pode ter nas gerações futuras. As lutas são muito bem coreografadas e convincentes. E tudo combinado com boas expressões faciais, coisa que os machões dos filmes de ação têm sérias dificuldades. O brandir os braceletes um contra o outro, infelizmente, nem sembre sai intenso o suficiente, o que talvez seja pelo material do figurino não ser tão resistente. Outro momento em que as lutas não funcionam tão bem são em uns dois segundinhos em que Gadot é substituída por computação gráfica. Nada que não possam melhorar nos próximos filmes.

No fim das contas

A fotografia é formidável, ajudando os diferentes ambientes e humores da história, com 3d na medida certa. O figurino e os objetos de cena são irretocáveis. O som está muito bem feito (o ruído do material da máscara da Dr. Veneno é formidável) e a trilha sonora não toma o filme todo, sendo reservada para momentos que realmente importam. Merece palmas também o elenco de apoio, em particular Chris Pine e Lucy Davis.

No fim das contas: Mulher-Maravilha vale a pena? Vale, e muito! No cinema 3d, de preferência com cadeiras vibratórias (olha o merchant!). É, sem dúvida, o primeiro “filmão” da DC, que facilmente fica entre os melhores do ano.

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