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Mutirões estão sendo organizados para fazer limpeza do óleo no litoral do Nordeste, saiba os cuidados e as recomendações

Mais uma vez o Brasil passa por um sério crime ambiental. Desde o final de agosto, manchas de óleo atingem praias brasileiras, já chegando a 187 pontos em 77 municípios dos nove estados nordestinos, de acordo com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Destes, oito são envolvidos com o bioma da Mata Atlântica. As informações são da SOS Mata Atlântica.

Entre estas áreas, estão praias paradisíacas, como Praia do Forte (BA) e Pipa (RN), além de Maragogi (AL) e Praia dos Carneiros (PE), localizadas na maior Unidade de Conservação (UC) federal marinha costeira do Brasil, a Área de Proteção Ambiental (APA) Costa dos Corais. Já são, pelo menos, 15 UCs atingidas pela mancha. Além disso, até quarta-feira, 16, 29 animais foram afetados, sendo duas aves mortas e uma viva, 11 tartarugas-marinhas vivas e 15 mortas, 486 filhotes de tartarugas-marinhas foram capturadas preventivamente, além de comprometer toda a vida costeira e marinha.

Perante este cenário e da lentidão do governo federal em saber a quantidade, origem, local exato do vazamento e futuras medidas eficientes para controlar o avanço da mancha, mutirões de limpeza estão sendo organizados para remover o óleo cru que atinge a costa brasileira. “A iniciativa e o envolvimento de voluntários em todo o Brasil nas áreas costeiras é muito bem-vinda, mas é importante ter alguns cuidados para não se colocar em risco”, diz Diego Igawa Martinez, biólogo e coordenador de projetos marinhos da Fundação SOS Mata Atlântica.

Para Ícaro Moreira, professor e pesquisador do Departamento de Engenharia Ambiental da Universidade Federal da Bahia (UFBA), trata-se de um problema de difícil de se resolver em pouco espaço de tempo, principalmente a criação de estratégias emergenciais no combate à chegada de manchas e de resquícios do óleo. Além do mais, o óleo carrega substâncias perigosas e que podem causar riscos à saúde humana, fazendo com que deva ser evitado o contato com a pele. Ele pode gerar alergias ou até, dependendo da absorção da pele, entrar na corrente sanguínea e trazer danos. Em casos mais graves pode inclusive levar ao câncer.

“Estou vendo em campo muita gente engajada em ajudar a limpar as praias, mas é importante que as pessoas que querem ajudar verifiquem se de fato têm os equipamentos de proteção individual [EPIs] adequados. Estou vendo algumas pessoas fazendo essas ações descalças e tirando fotos com mãos e pés sujos de petróleo. Isso não pode acontecer. É importante usar traje de limpeza e não de banho“, afirma ele.

O Ibama pediu ajuda à Petrobras para trabalhar na limpeza de praias. A empresa está capacitando e contratando agentes comunitários, pessoas das regiões locais para serviços de limpeza, mas o número real de mão de obra dependerá da quantidade de pessoas preparadas disponíveis nas áreas atingidas.

“O Ibama tem feito a ação importante de monitorar e dar suporte aos municípios, mas de fato tem ocorrido as ações em proatividade dos municípios, principalmente de voluntários. Não parece existir uma resposta organizada no nível federal. É importante ter um acompanhamento e combate ao avanço da mancha. Algumas pessoas têm questionado o uso de barreiras de contenção pelo tipo de petróleo, mas elas ajudam a minimizar os impactos“, ressalta ele.

Materiais que devem ser usados e recomendações:

  • Uso de máscaras (principalmente no horário do início da tarde, quando é mais quente, pois no contato com sol o óleo libera vapores altamente tóxicos);
  • Luvas de PVC (não usar luvas cirúrgicas);
  • Botas (de plástico ou outro material impermeável). Não usar tênis, bota de trilha nem ir descalço;
  • Usar calças (não traje de banho). Se sujar a roupa, ela deve ser descartada;
  • Carro de mão para armazenar o material retirado;
  • Pás adequadas (de plástico ou inox);
  • Armazenar o material em tambores, bombonas ou tonéis e deixar o material fechado, pois se trata de material inflamável (não usar saco de lixo de plástico, pois o óleo pode rasgar os sacos). A destinação deve ser definida pelo Ibama e cabe ao município cumprir;
  • Ao ver um animal afetado pelo óleo, não o devolva para o mar nem tente fazer nenhum procedimento, a não ser uma manobra de emergência para retirar o óleo de vias respiratórias. É importante manter o animal na sombra e hidratado. Procure especialistas, órgãos ambientais ou organizações que podem realizar os procedimentos adequados;
  • É complicado retirar o óleo de rochas. Evite subir nestes locais que podem ocasionar quedas. Uma forma de limpar é com jato de água quente, pois, é necessário muita força para conseguir extrair o material. Quando o material escoar, use material absorvente, como tecidos ou até biofibras, como fibra de coco que se aderem ao óleo;
  • Em situações em que o óleo esteja mais fluido, é possível usar materiais absorventes, como tecidos e também fibra de coco. Este óleo pode ser reaproveitado e deve ser armazenado em local diferente daqueles não fluidos.

Prejuízo pode durar décadas

Ícaro ainda evidencia o grande impacto deste óleo no mar, principalmente aquele que sai da área superficial e chega ao fundo do oceano. “Quando em uma área você tem a presença de um grama de petróleo por litro de água, que é o que está acontecendo em muitos casos, você tem a redução de 70% da biodiversidade da região. A limpeza de maneira rápida é para tentar diminuir essa exposição, pois o que podemos acompanhar em seguida é uma poluição dentro da cadeia alimentar, com compostos cancerígenos chegando até o homem, decréscimo de fertilidade dos organismos marinhos, desequilíbrio ecológico e, a médio e longo prazos, o desaparecimento gradual da flora e da fauna. O petróleo é persistente depois que entra em contato com sedimentos e isso pode durar muitos anos”, conclui ele.

Clemente Coelho Junior, professor e pesquisador da Universidade Rural de Pernambuco e fundador do Instituto Bioma Brasil, tem ponto de visto semelhante. Para ele, será preciso muitos anos para recuperar praias com este tipo de sujeira. “É praticamente impossível, por exemplo, tirar o óleo que já chegou nos corais. Vão se criar várias zonas mortas. Quando chega aos manguezais, muito mais, pois não existe protocolo de limpeza dos manguezais. Por isso alerto que é a maior tragédia ambiental do litoral brasileiro. Quase metade do litoral do país e todo o litoral nordestino foi atingido. É preciso prestar atenção neste deslocamento do óleo, pois estamos correndo atrás dele. Esta medida é de início de recuperação, que deve ser por décadas“, declara.

O especialista ainda realça que o Plano Nacional de Contingência para Incidentes de Poluição por Óleo, instituído pelo Decreto 8.127 de 23 de outubro de 2013, poderia impedir toda essa tragédia. “Estamos falando de 46 dias em que não se aplicou este plano. Ele prevê uma articulação do governo federal com alguns órgãos para trabalhar no princípio da precaução e da previsibilidade, descobrindo onde está o óleo para evitar mais impactos“, conclui ele.

Fonte: catracalivre

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